UTMB Mont-Blanc: o maior palco mundial do trail está em risco?
Para lá do balanço desportivo de uma edição de 2026 absolutamente louca, o UTMB Mont-Blanc concentrou atenções e críticas devido à dimensão gigantesca que passou a estar associada ao maior evento mundial de trail. Embora o número de corredores e acompanhantes tenha diminuído ligeiramente, o comboio tenha sido incentivado, o plano de mobilidade nos dias de prova seja substancial, a área das marcas tenha sido reduzida e a pegada carbónica do evento tenha caído 3% em 2025 face a 2024, a prova de Chamonix tornou-se um alvo. A agitação da última semana de agosto na cidade de 9000 habitantes agrava as tensões entre uma população local incomodada e alguns participantes ou visitantes por vezes indisciplinados. Neste contexto, a nova autarquia repetiu várias vezes que será indispensável emagrecer a competição nos próximos anos. Caso contrário, o UTMB Mont-Blanc poderá deixar de ser bem-vindo na cidade onde nasceu. Perante esta necessária adaptação, o diálogo parece bem encaminhado entre as partes envolvidas, sobretudo a Câmara de Chamonix e o UTMB Group. A associação Protect Our Winter (POW) organizou, no âmbito da prova, um encontro tripartido em que estes desafios foram debatidos, para continuar a fazer avançar ideias e encontrar soluções.
São raros os eventos como o UTMB Mont-Blanc, escrutinados desta forma. É provavelmente o preço do sucesso quando se assume como o maior palco mundial do ultra trail. A exigência de dar o exemplo tem de estar presente a todos os níveis, sobretudo no impacto ambiental de um evento como este, realizado num ambiente de montanha especialmente castigado pelo aquecimento global e onde os seus efeitos são bem visíveis, como o recuo dos glaciares e os deslizamentos de terras.
Perante a onda de críticas recebida antes e durante o evento, devido à sua dimensão, à falta de respeito pela população local e pelo território, entre outros motivos, o UTMB sentiu que os seus esforços não tinham sido reconhecidos ou eram vistos apenas como greenwashing.
A tendência de descida já começou, mas tem de ser reforçada
A associação ambiental Protect Our Winter (POW), que trabalha em conjunto com o UTMB para reduzir o impacto do evento, publicou, poucos dias antes do início da semana de provas, os principais resultados do balanço carbónico de 2025, assinalando «progressos tímidos e uma trajetória ainda frágil para atingir o objetivo de reduzir em 20% as emissões de carbono até 2030».
A redução da pegada carbónica foi de 3%, com 24 400 tCO2e em 2025 contra 25 200 tCO2e em 2024. Uma inflexão explicada sobretudo pela redução do número de participantes e intervenientes presentes, com menos 280 corredores em 2025, uma diminuição de 2,5%, e pela redução do número de meios de comunicação, convidados e parceiros, menos 560 pessoas.
É uma gota no oceano, sem dúvida, mas teve o mérito de iniciar um movimento que parece ter prosseguido em 2026, nomeadamente com a atribuição de um bónus de 30% no sorteio aos concorrentes que optassem por chegar ao local através de um meio de transporte de baixo carbono, como o comboio. Um esforço ainda considerado insuficiente face ao peso das viagens aéreas: 38% dos corredores chegam de avião e 50% de carro. Além disso, 84% das emissões associadas aos transportes são geradas pelos 25% de corredores transcontinentais.
Neste contexto alarmante, a POW propôs quatro caminhos de progresso aos grandes eventos desportivos internacionais, entre eles o UTMB:
Espaçar as edições, organizando algumas provas de dois em dois anos ou com menor frequência.
Reduzir o número de participantes, espectadores e parceiros, uma alavanca já utilizada pelo UTMB em 2025.
Incentivar e privilegiar os meios de transporte de baixo carbono, medida adotada pelo Marathon du Mont-Blanc desde 2024 e pelo UTMB em 2026.
Limitar as viagens aéreas transcontinentais e continentais, garantindo ao mesmo tempo uma participação internacional equilibrada.
Não podemos continuar a receber cada vez mais pessoas. Temos de estabelecer limites.
Do lado da nova autarquia de Chamonix, eleita em março passado, o apelo à «adaptação» é forte. «Já não vivemos no mesmo mundo de antes», insistiu o novo presidente da Câmara de Chamonix, François-Xavier Laffin. Enquanto eleito, a adaptação é uma questão central, sobretudo aqui, perante as alterações climáticas que afetam o esqui e a montanha em geral.»
«A gestão dos fluxos turísticos é um desafio central para o vale. E não diz respeito apenas ao UTMB. Por exemplo, a necessidade de regular o acesso ao Lac Blanc é outro grande desafio atual. Perguntamo-nos se não teremos de limitar o número de bilhetes vendidos para controlar o acesso.» prossegue o presidente da Câmara, como que para mostrar que não está a perseguir o UTMB. «Não podemos continuar a receber cada vez mais pessoas. Temos de estabelecer limites».
Antes de abordar especificamente o caso do UTMB Mont-Blanc: «Quando foi criado, o UTMB gozava de enorme popularidade, sobretudo entre os habitantes, que participavam na organização. Nos últimos anos, pelo contrário, o evento provocou uma rejeição por parte dessas pessoas», observa o presidente da Câmara, que, apesar disso, não dispõe de um inquérito quantificado sobre esta perda de apoio, apenas de perceções resultantes de conversas com alguns munícipes. «Não temos dificuldades em trabalhar com a organização, nem estamos em conflito com ela», faz questão de esclarecer o novo autarca.
«A vertente desportiva do UTMB é notável. Eu próprio participei nesta prova e sei as emoções que proporciona. Mas teremos de trabalhar em três frentes principais para garantir a continuidade do evento. Para começar, não podemos excluir a redução do número de participantes ou de provas. Também estamos a ser ultrapassados pela dimensão das marcas e das ativações. Temos de decidir rapidamente o que é admissível e o que deve ser proibido. Quanto aos espectadores, é preciso transmitir que não podemos estar todos no mesmo momento e no mesmo lugar. Poderá ser necessário interditar alguns locais. Tudo isto exige também uma comunicação mais afinada com a população local, que suporta cada vez pior a situação vivida nesta última semana de agosto».
A adaptação faz parte do nosso quotidiano durante todo o ano. Temos uma equipa que trabalha ao longo de todo o ano nos planos B. Faz parte do ADN deste desporto saber adaptar-se.
Do lado do UTMB Group, a mensagem foi recebida, como confirma Fabrice Perrin, UTMB Chief of Sports, Communities & Sustaiddnability. E o diálogo com os críticos parece decorrer com fluidez. «A adaptação faz parte do nosso quotidiano durante todo o ano. Temos uma equipa que trabalha ao longo de todo o ano nos planos B. Faz parte do ADN deste desporto saber adaptar-se».
Falta agora encontrar um consenso sobre as medidas de adaptação propostas pela Câmara e pela POW. «Não estamos muito de acordo, por enquanto, com a redução do número de corredores, por exemplo. E não é uma questão de volume de negócios. É sobretudo uma questão de filosofia. Para os fundadores do evento, é fundamental juntar pessoas de todo o mundo. Não queremos fechar-nos sobre nós próprios. E, se retirarmos 5000 participantes ao evento, Chamonix continuará a encher-se de outra forma », analisa Fabrice Perrin. Por outro lado, estamos mais disponíveis para discutir a forma de planear as provas, alterar eventualmente os locais de partida e/ou chegada e rever a programação das corridas ao longo da semana».
Todo o ecossistema em torno do evento também terá de se adaptar
Nesta altura, a situação do UTMB Mont-Blanc aproxima-se da de uma obra-prima em risco. As próximas semanas poderão ser decisivas e a edição de 2027 poderá sofrer mudanças profundas, com a realização dos Campeonatos do Mundo de Ciclismo em Sallanches, de 24 de agosto a 5 de setembro de 2027 (e o UTMB previsto de 23 a 29 de agosto de 2027), o que deverá congestionar ainda mais o vale.
Salvar este monumento do trail dependerá certamente de uma mudança de atitude de todos os intervenientes e de uma tomada de consciência coletiva, em primeiro lugar por parte dos organizadores. Mas não só. Foi sobretudo o ecossistema que gravita em torno do evento que acabou por fragilizá-lo.
As marcas, parceiras ou não, que desenvolveram mais de 60 ativações durante a semana de provas de 2026, terão, por exemplo, de reduzir a escala. Mesmo que isso signifique perder uma das suas galinhas dos ovos de ouro.
Os espectadores, por vezes histéricos nos trilhos, junto a eles ou no centro da cidade, também terão de recuperar um comportamento e uma atitude compatíveis com a fragilidade deste ambiente, sob pena de verem desaparecer um monumento.
Marina Ferrari, ministra do Desporto, da Juventude e da Vida Associativa, foi a convidada surpresa da partida da edição de 2026. Falou do «orgulho nacional» ao referir-se ao UTMB Mont-Blanc. Ao que tudo indica, esse sentimento abandonou o vale. Cabe a todos os intervenientes reequilibrar a balança, para que organizar o maior evento de trail do mundo deixe de ser um fardo e passe a ser motivo de orgulho e sucesso.