Projeto 0 to 100: primeiro balanço com Guillaume Millet depois da ETC do UTMB 2026
Em fevereiro passado, o fisiologista do exercício Guillaume Millet concretizou o seu projeto «0 to 100», que consistia em selecionar 40 pessoas sedentárias e tentar levar 80% delas à CCC 2027, uma prova do UTMB Mont-Blanc com 100 km e 6000 m de desnível positivo, após 18 meses de preparação. O objetivo era demonstrar cientificamente os benefícios espetaculares da atividade física intensa na fisiologia, nomeadamente na resistência, na qualidade muscular, na força e na potência, mas também na saúde, na qualidade de vida, na fadiga, na composição corporal e no sono. Depois de seis primeiros meses de preparação física, os 40 participantes enfrentaram, em agosto passado, um primeiro teste competitivo na ETC do UTMB 2026, com 15 km e 1200 m de desnível positivo. O balanço e os próximos passos, pela voz do responsável pelo projeto.
Guillaume, o que retém deste primeiro teste competitivo na ETC 2026?
Antes de mais, que é um trail e tanto. No papel, 15 km não parecem nada de especial, mas, com o desnível e a tecnicidade do terreno, esta ETC revelou-se um verdadeiro desafio. Não tinha percebido até que ponto era dura. Quando comecei a subir até ao abastecimento, comecei a pensar que talvez fosse demasiado difícil e que os nossos atletas ainda não estivessem totalmente preparados para aquilo, apesar de os tempos-limite serem bastante folgados.
No fim, 37 dos 40 participantes conseguiram terminar. Ou seja, a grande maioria dos inscritos conseguiu, o que foi uma boa surpresa. A primeira conclusão é que, em seis meses, todos evoluíram bastante, apesar de não terem treinado especificamente para aquele desnível.
O plano avançou, portanto, praticamente sem contratempos?
Correu muito bem, não só nesta prova, mas desde o início do programa. Bato na madeira, porque isso não significa que vá continuar assim, mas, até agora, dificilmente poderíamos ter pedido mais. Os 40 participantes continuam no projeto, e isso não era garantido. Outro ponto positivo é o ambiente que se criou entre eles. Estão realmente muito unidos. Continuam motivados, incluindo os três que não conseguiram terminar a ETC, mas que rapidamente recuperaram o ânimo. Todos sabem que será difícil chegar ao fim da CCC, mas, se continuarem assíduos e assimilarem bem os próximos fins de semana intensos, não há razão para não conseguirem. A dificuldade da CCC não está tanto na distância e no desnível, mas sobretudo nos tempos-limite. São bastante exigentes.
Acredita que a adrenalina da competição também influenciou o resultado da ETC?
De qualquer forma, deram tudo. Percebia-se que aquilo era realmente importante para eles. E também estão totalmente envolvidos no projeto em geral. Às vezes, até demasiado. Por isso, não subestimamos o impacto que este projeto tem nas suas vidas. Planeámos acompanhamento mental e até apoio psicológico.
Antes desta ETC, os 40 nunca tinham usado um dorsal nem participado numa competição?
Alguns tinham jogado um pouco de futebol, praticado natação ou feito umas corridas na juventude. Mas o ponto de partida era serem verdadeiramente sedentários há vários anos. Um deles tinha feito uma maratona na sequência de uma aposta com um amigo. Terminou em 7h42, basicamente caminhou o percurso todo, por isso aceitámo-lo. Por outro lado, descobrimos que outro candidato tinha corrido a Marseille-Cassis num tempo razoável, pelo que o excluímos, apesar de não ter tido má-fé: tinha-nos dito que não treinava. A idade mínima para participar no estudo era de 25 anos, por isso é natural que o mais novo ainda tivesse tido aulas de educação física no liceu alguns anos antes, mas isso não representa grande coisa. Todos partiam de muito baixo. E alguns partiam mesmo de muito, muito baixo.
Ficou surpreendido com algumas capacidades inesperadas?
Sim. Há alguns com bons valores de base, ao ponto de nos termos perguntado se eram realmente sedentários. Atribuo isso ao facto de terem desenvolvido essas qualidades durante a adolescência ou no início da idade adulta. Depois, há quem tenha capacidades inatas, como aqueles que apresentam bons valores de VO2max, entre 40 e 45 ml/min/kg. Pessoas muito magras, sem excesso de peso. No extremo oposto, há quem parta realmente de muito longe, com um VO2max de 25 ml/min/kg. Têm em comum o sedentarismo, mas não partem todos do mesmo ponto.
Já está prevista a próxima etapa competitiva?
Autorizámos quatro provas até à CCC, das quais têm obrigatoriamente de fazer duas, incluindo pelo menos uma com 40 ou 50 km no início do verão. Também autorizámos uma prova de 10 a 15 km no final de dezembro e outra de 20 a 30 km em março. Agora que estão, ainda que pouco, treinados, têm vontade de participar em provas. Mas não podemos exagerar.
Receio o período de inverno, e também o facto de ser preciso treinar um pouco mais em 2027 para atingir o objetivo. Mas todos continuam motivados
Receia este período de inverno?
Sim, porque é nessa altura que tudo se vai decidir, e chamámos-lhes a atenção para isso. Com a fadiga e o inverno, poderão ficar menos motivados. Foi também por isso que autorizámos uma prova em dezembro, para tentar manter um mínimo de motivação. Até agora, têm vivido a fase mais fácil: receberam o equipamento, correram ao sol em Chamonix, no ambiente efervescente do UTMB. A partir daqui, os dias vão ficar mais curtos e tudo será cada vez menos simples.
Também receio o facto de ser preciso treinar um pouco mais em 2027. Até agora, eram cinco ou seis horas por semana. Quando for necessário treinar dez ou doze horas por semana, tenho medo de que sacrifiquem algum sono, devido às exigências da vida profissional e pessoal. Não estão habituados a organizar a vida em função do treino, por isso terão de se adaptar.
O próximo grande bloco será, portanto, dedicado ao trabalho de intensidade?
Quando se começa, é relativamente simples reforçar a carroçaria, mas depois torna-se mais difícil melhorar o motor. Essa é a próxima etapa do programa acompanhado pela École de Trail: trabalhar a intensidade para aumentar a potência do motor. E, se possível, sem lesões. Já tivemos alguns atletas lesionados, mas soubemos acompanhá-los e fazê-los regressar, graças aos fisioterapeutas de outro dos nossos parceiros, La Clinique du Coureur.
Até agora, concentrámos a preparação no reforço muscular. Vamos agora iniciar um bloco de quatro meses em que o volume não aumentará muito, mas a carga irá progredir através do aumento da intensidade. Isso levar-nos-á até janeiro. Depois, aumentaremos o volume e começaremos a fazer alguns fins de semana intensos.
Quantos encontros conjuntos estão previstos?
Já fizemos um encontro. Voltaremos a reunir-nos no final de outubro, em Besançon, e depois perto de Annemasse. É provável que acrescentemos um quarto bloco em La Rosière, no início de julho. Não será obrigatório, mas é vivamente recomendado, num terreno semelhante ao da CCC.
O PROJETO 0 TO 100 EM RESUMO
40 participantes, 20 mulheres e 20 homens
Ter entre 25 e 50 anos
Ser totalmente sedentário e inativo
18 meses para passar de sedentário, ou 0 km, à partida da CCC/UTMB, em Chamonix, com 100 km e 6000 m de desnível positivo
11 treinadores da École de Trail para os preparar
Um programa semanal e acompanhamento personalizado para cada participante
3 ou 4 fins de semana intensos para reunir todos os participantes e intervenientes, com treino, aulas e noções teóricas
5 visitas ao laboratório para avaliações e testes em Saint-Étienne
3 objetivos competitivos antes da meta: ETC, 15 km, no UTMB Chamonix, em agosto de 2026; uma prova em meados de dezembro; outra de 20 a 30 km no início de março; e uma prova de 40 km no final da primavera de 2027
Informações: www.0to100.fr