Aurélien Sanchez, o único francês no palmarés da Barkley
© Jean Despiau et Maxime Audouard

Aurélien Sanchez, o único francês no palmarés da Barkley

CP
Por Charles-Emmanuel Pean

Publicado em seg., 3 de agosto de 2026

Atualizado em seg., 3 de agosto de 2026

Até hoje, é o único francês a inscrever o seu nome no palmarés da Barkley, a mítica prova americana. Vencedor em 2023, apenas o 16.º finisher deste trail reputado como o mais duro do mundo, Aurélien Sanchez está longe de ter terminado a exploração dos próprios limites. Entrevista com o homem que acabou de pulverizar o recorde do Pacific Crest Trail, um dos percursos mais extremos do planeta...

Desde 1986, ano em que foi criada, só sete corredores terminaram a Barkley à primeira tentativa: Mark Williams em 1995, Ted Keizer em 2003, Brett Maune em 2011, Jared Campbell e John Fegyveresi em 2012, Aurélien Sanchez em 2023 e Ihor Verys em 2024… Pelo contrário, 2025 e 2026 foram anos sem finisher na prova. Dá para perceber a peça. Quando o conhecemos, não é forçosamente fácil imaginar o atleta incrível por trás desse sorriso sereno e dessa calma olímpica. Aurélien Sanchez tem os pés bem assentes no chão. Só que, com frequência, num chão um bocado instável, digamos. Como aquele que serve de parque de diversões à Barkley Marathon : as montanhas do Frozen Head State Park, no condado de Morgan, no Tennessee, nada famosas por receberem bem quem as visita… Recorde-se: a prova no sudeste dos Estados Unidos consiste em percorrer cerca de 200 km (distância que varia conforme as edições), com cerca de 20 000 metros de desnível positivo, em 5 voltas, num tempo máximo de 60 horas, ainda por cima numa altura fria do ano. Em 2026, ninguém completou as 5 voltas. E convém saber que o criador da prova, o inimitável Gary Cantrell, aka « Lazarus Lake », pensou a sua prova para ser quase impossível de acabar. Foi preciso esperar até 1995 para ver um primeiro corredor terminar, ou seja, 9 anos depois da criação! O que, se for preciso, ajuda a dimensionar o feito de Aurélien Sanchez em 2023.

Antes de brilhar na Barkley, Aurélien Sanchez já tinha assinado outros feitos de peso no mundo do ultra: em 2018, quando vivia nos Estados Unidos, o occitan vence o famoso John Muir Trail (359 km, 14 000 m de desnível positivo) em 3 dias, 3 horas e 55 minutos. O mesmo no ano seguinte, no Baldy Marathon, na Califórnia (160 km em menos de 60 horas). De regresso ao Hexágono em 2020, destaca-se na Vendeia, na prova Dernier Homme Debout de Saint-Laurent-sur-Sèvre, em 2020 (127 km e 4 420 m de desnível positivo), em 13 horas e 54 minutos. Nesse mesmo ano, faz o desafio de atravessar o GR10 (Pirenéus), de Banyuls-sur-Mer a Hendaye. Um percurso fechado em 12 dias sem qualquer assistência externa. O tipo de combate de que ele gosta, e que tinha um objetivo: « Tudo o que faço há três anos é para ser aceite na Barkley », dizia ele em 2020.

Estamos em 2026 e Aurélien continua à procura de emoções fortes através do ultra. Encontrámo-lo em Paris, numa conversa com o realizador Fabien Duflos sobre a Barkley, e o corredor natural do Aude aceitou, de bom grado, falar-nos da vitória de 2023, mas também das dificuldades encontradas nas edições seguintes. E já com a cabeça virada para o próximo desafio: a Pacific Crest Trail (PCT). Quando dizemos que por trás desse rosto tranquilo há sempre qualquer coisa a acontecer…

Aurélien, qual é a primeira imagem que lhe vem à cabeça quando se fala da sua vitória na Barkley em 2023?

A imagem que guardo, atenção, não tenho nostalgia, isso já passou. É um momento que hoje está atrás de mim, mesmo que eu tenha de admitir que ficou bem gravado (sorriso). O que me vem à cabeça é a chegada na quinta volta, quando toco naquela famosa barreira amarela, quando nos felicitamos todos com o Laz’ (nota do editor: Lazarus Lake, o fundador da prova, na foto abaixo) e com a comunidade. Já tinham passado seis anos sem haver um finisher na prova. E, para lá da minha performance pessoal, sente-se que se está a celebrar isso: o facto de haver um finisher na Barkley. É quase uma vitória coletiva contra a prova. Não é propriamente o meu finish que se festeja. Mais do que essa imagem, foi um projeto longo que me definiu e que também foi um verdadeiro culminar na minha vida de desportista.

© Michael Hodge
Lazarus Lake a dar o tiro de partida ao acender o seu cigarro…

Falou do Lazarus Lake, o fundador desta prova. Com todas as edições em que participou (nota do editor: 2023, 2024, 2025 e 2026), já conseguiu decifrar o mistério à volta da personagem?

O Laz’ não tem necessariamente uma imagem que o represente bem nos media. Às vezes tomam-no por um guru de seita, um tipo que nos quer infligir sofrimento ou um bocado maluco. É exatamente o contrário: ele quer-nos bem e é muito inteligente. Porquê inventar esta prova? Sempre foi apaixonado pelo ultra. Criou imensas provas. Porque é que ele gosta tanto do ultra? Acho que por duas coisas: viver emoções e depois ter histórias para contar. É por isso que toda a gente faz ultra, para viver emoções e depois dizer “vivemos isto, vivemos aquilo”. E a Barkley é isso, mas levado ao limite, ao extremo. Ali vivem-se as emoções mais extremas possíveis, tanto negativas como positivas. E é por isso que o Lazarus põe a fasquia num 1% de finishers. Na maior parte das vezes, a Barkley não se acaba e é um falhanço. Mas quando se acaba, as emoções são tão positivas como raramente se vê. Portanto, este conceito existe para que apenas 1% de finishes seja celebrado em grande. Claro que isso passa pelo falhanço, pela aprendizagem e pela humildade. E isso não faz mal a ninguém. Depois, há a parte de contar histórias. Quando nos reunimos na Barkley, o Lazarus adora contar as histórias das edições anteriores. Diverte-se imenso. Para ele, a vida é só um jogo. Não é mais complicado do que isso.

Nasceu mesmo por cima dos Pirenéus e, antes do trail, havia a caminhada. A sua infância predestinava-o ao ultra?

Não, nada disso. Estava longe. Em adolescente, era futebol a 100%. E, para mim, não tem nada a ver: não são os mesmos valores, não é o mesmo mundo. Lembro-me de pequenas caminhadas que fazia com o meu pai para ir apanhar cogumelos. Não me sentia muito no meu lugar. Preferia ir para um campo de futebol do que estar na floresta, sozinho, fora de trilho. Provavelmente era demasiado novo para dar o devido valor a esses momentos. Caminhar não era muito a minha praia, digamos. Mas acho que acontece como com muitas crianças: são coisas que ficam lá no fundo e que se redescobrem mais tarde, já em adulto, quando se começa a gostar de estar na natureza, a saborear as paisagens e tudo o que nos rodeia. Eu era muito desportista, portanto isso deu-me uma base. Se não tivesse sido, claro que teria sido mais difícil entrar no ultra. O ultra e as caminhadas vieram tarde. E depois veio a vontade de ir mais além. Aí, sim, eu estava “equipado”, porque sempre tive um espírito competitivo dentro de mim. Queria ser o melhor quando era miúdo. Hoje, quero mesmo ser a melhor versão de mim próprio, comparo-me muito menos com os outros. Na altura, é verdade, eu era mesmo competitivo com os outros. Mas essa parte competitiva, intrínseca, muito profunda, sempre esteve lá. Sempre a ambição de fazer melhor, etc. É muito pessoal. Há quem não queira forçosamente puxar pelos limites e sair da zona de conforto. E isso eu não sei explicar. Acho que depende de cada um.

Aurélien Sanchez© Jean Despiau et Maxime Audouard.

Depois dessa fase, vieram os Estados Unidos. Foi lá que nasceu a semente do trail?

Totalmente. E de forma natural, nem fui eu que escolhi. Tentei jogar futebol lá, mas não era a mesma coisa. É menos estruturado do que em França, por isso não me agradou. E, naturalmente, há caminhadas por todo o lado. Não dá para passar ao lado. Não dá para ignorar os trilhos incríveis no Arizona, no Grand Canyon, etc. Mesmo que não se seja do meio das caminhadas, quase somos obrigados a fazê-las. É praticamente inevitável! Então comecei a fazer rando, com vontade de explorar esses grandes espaços do Arizona e do Oeste americano. Passei a usar todos os fins de semana para isso e fui de futebolista a caminhante. De volta a França, o trail apareceu aos poucos, para prolongar essa prática de caminhada que eu tinha começado nos Estados Unidos. Comecei a pôr nomes na prática do ultra, a interessar-me por toda a comunidade do ultra, pelas diferentes provas…

O “clique” veio de onde? Lembra-se?

Lembro-me exatamente, porque foi numa caminhada que fiz no Grand Canyon. Tinha proposto a pessoas nas redes sociais para irem comigo, porque eu ia sozinho e sabia que era uma caminhada muito exigente. Houve montes de gente a dizer-me que era inconsciente ir sozinho, e que era inconsciente também ir com outras pessoas, porque era fora de trilho, não havia água, era comprometida, pronto. No fundo, tomaram-me por troll, como se diz nas redes. E eu pensei: isto está quente, não sei bem no que me vou meter… Primeiro, ouvi essas opiniões. Depois disse para mim mesmo: vá, paciência. Se eu fizer as coisas como deve ser, vou tentar, vou fazê-la. E, no pior dos casos, volto para trás. No fim, aconteceu que consegui fazê-la em 13 horas, a andar e a correr. Só depois é que percebi que estávamos a falar de duas práticas completamente diferentes. Eles eram caminhantes com mochilas grandes. Eu era mais um ultratrailer, sem o saber, a correr.

A sua obsessão pela Barkley nasceu aí?

Eu queria fazer a caminhada mais extrema que pudesse existir, para sair da zona de conforto e testar-me. Naturalmente, ao informar-me, o esforço de caminhada mais extremo que existe é a Barkley. É claramente uma prova onde não se corre assim tanto. É bruto, é “matagal”, é uma prova de javalis, como alguns dizem. E a mim isso deu-me o clique. Pensei: perfeito, é a caminhada última onde me quero testar. Por isso é que digo que nem passei pelo ultratrail ou pela corrida. Passei da caminhada para a Barkley.

Em que momento é que pensou que havia ali algo forte para fazer, do ponto de vista desportivo?

Acabei por me perguntar como é que se participa na Barkley. Foi aí que vi que alguém tinha feito o recorde no John Muir… Então pensei: vai ser isso. Falhei uma vez, falhei duas vezes e consegui à terceira. De fora, parece impressionante, mas na realidade é trabalho e continuidade. Não há “magia”. Foram falhanços grandes, aprendi muito. A primeira vez em que percebi que podia fazer algo foi quando bati o recorde no John Muir Trail, em 2018. Foi o meu primeiro grande projeto, o primeiro pensado para chegar à Barkley. Mas quando consegui o recorde, sem assistência, pensei: agora isto começa a ficar interessante e começo a fazer coisas como as pessoas que me inspiram. Resiliência, pelo menos, eu tenho. Foi o meu primeiro “feito”.

© Wikipedia / CC BY-SA 4.0

Fala da Barkley como uma “prova de javalis”…

É tão desconfortável em termos de trilhos, de caminhos… Sofremos quase em cada passada. Trilho a 40% o tempo todo. Não é por acaso que muitas vezes se veem marcas de javalis. Aliás, ainda este ano houve gente que deu com um grande ninho de javalis. Estamos com eles e usamos as passadas deles. Claramente, isto é o terreno deles…

Este ano, o mau tempo no fim da prova foi um travão demasiado grande?

Há três anos que o tempo tem sido ideal na Barkley e, mesmo assim, duas dessas edições não tiveram finisher. O percurso evoluiu muito nos últimos dois anos. Portanto, mesmo sem falar de meteorologia, o traçado é muito complicado, muito exigente. Quando o tempo entra na equação, vira quase missão impossível. Agora, com este percurso, é preciso que tudo se alinhe. É preciso treino físico, treino mental, equipamento, capacidades de navegação... E ainda a sorte do tempo! Porque quando o tempo é catastrófico como este ano, acho que é claramente impossível. Talvez dependa da duração, mas se estiver terrível durante 60 horas, é impossível, porque com 40% de inclinação em terra, ou melhor, em lama… As subidas são de gatas! Não se anda nada.

Quando em 2020 atravessou os Pirenéus em 12 dias sem assistência, levava muito pouco material e uma preparação minimalista. Mas fala muito de visualização, no sentido de preparação psicológica para cenários negativos… Pode explicar-nos esse ponto?

Para mim, o importante é isso: conseguir enfrentar situações que, inevitavelmente, são duras. Como é que eu me preparo. Talvez eu precise disso mais do que outros corredores. Sinto necessidade de visualizar o objetivo, as condições, o que pode acontecer. Porque, no ultra, tudo é adaptação. Tudo muda: o terreno, o tempo, a nossa forma física, a motivação mental… E temos de nos adaptar a isto constantemente. Quanto mais energia isso nos sugar, mais difícil será chegar a algum lado se não estivermos prontos. É claro: se não se é uma pessoa flexível, não vale a pena embarcar numa aventura destas… A ideia é antecipar ao máximo os cenários possíveis e reduzir essa adaptação, para nos concentrarmos apenas nas coisas em que não há escolha e temos mesmo de nos adaptar. Até o tempo, por exemplo, dá para visualizar: se estiver frio, levo pares extra de luvas; se chover, levo calças impermeáveis, etc. Tudo isso tem de estar visualizado porque, pelo menos, quando chove, automaticamente, não há dúvidas: vestem-se as calças e o casaco impermeável e está feito. Enquanto que, se não antecipámos, mentalmente já começamos com: “Meu Deus, está a chover, isto é um inferno, eu tinha previsto sol”…

Aurélien Sanchez© Jean Despiau et Maxime Audouard

O que é que se passou contigo este ano na Barkley?

Visualizei mal o esforço. E quando tive de lutar, não fui capaz de lutar mais do que aquilo. Portanto, com distância, eu gostaria de ter visualizado ainda mais o esforço e a dificuldade que havia para ultrapassar. Este ano, o esforço foi mesmo o frio, o vento, tudo ao mesmo tempo. Preparar-me, com precisão, para um momento da prova em que vou ter frio, vou estar cansado, já não vou querer continuar, não vou conseguir alimentar-me como deve ser... Em que posso até deitar-me no trilho por estar exausto. Se te preparaste, se já sabes, segues em frente. Mas eu, pessoalmente, ainda não me tinha preparado o suficiente. Então, quando vi que o regresso ao camp era à esquerda e que à direita era um trilho muito complicado, eu não estava pronto para o apanhar. Se eu tivesse visualizado aquilo dessa forma, aceitando antes da prova que ia acabar nessa situação e que isso fazia parte do jogo, talvez tivesse continuado mais algum tempo. Mas tive um grande momento de quebra que me custou a prova. A visualização mental antes é essencial no ultra, é 90% do trabalho. Podemos estar treinados ou não, mas se não tivermos isso, para mim, estamos feitos.

De onde vem o prazer nesta prática do ultra?

É verdade que pode parecer um desporto um bocado masoquista, em que nos fazemos mal. Mas quando o sol nasce e quando a meta chega, isso torna a conquista e o esforço ainda mais saborosos. Eu nunca senti emoções de transcendência tão fortes como quando consegui visualizar, enfrentar as dificuldades e ir além dos meus limites. E, no fundo, é esse tripé: visualizar as coisas, vivê-las e depois aceitá-las. É fácil dizer assim. Há vezes em que não consigo, como este ano na Barkley.

Lembra-se de passagens na edição de 2023 em que duvidou?

Muitas. A principal foi ao fim de 38 horas de prova. Aí é a última noite. Começo a cambalear, começo a ver mal, a adormecer no trilho… O caos. Eram mais ou menos meia-noite, ainda faltavam 7 horas de noite. Começo também a ter alucinações auditivas. Penso: isto é o início do fim. Agarrei-me ao que eu sabia. Nestas situações, o que é que se deve fazer, pelo menos no meu caso? Tomar cafeína, ajuda-me; comer… Hidratar-me bem, alimentar-me bem. E ao fim de 30 minutos, estava melhor. Mas, claramente, foi um momento muito, muito complicado em que eu estava a adormecer de pé. O resto da noite correu bem…

Num momento desses, em que cambaleia e tem quase alucinações, como é que gere a navegação?

Acontece que, nesse momento, eu estava acompanhado. Estava com o belga Karel, que também terminou a Barkley nesse ano. Mas com o Karel não tivemos uma colaboração perfeita, porque ele também estava cansado. Então ele contava comigo. E eu, inversamente. Foi nesse contexto que cometemos um erro de orientação. Depois, quando fiquei melhor, decidi assumir o controlo e seguir sozinho. Mais vale parar e recuperar lucidez, se for possível. A pergunta, sempre que nos perdemos, é: até que ponto já é tarde demais? O ideal é que sejam erros de 5 minutos. Felizmente, muitas vezes foi assim. Porque se forem 30 minutos, aí é que já não estamos mesmo lúcidos. Felizmente, foram muitas vezes erros de 5-10 minutos. E, quando estamos num lugar que não conhecemos, são apostas que fazemos connosco próprios. Tentamos escolher a direção mais certa, mais rápida. Muitas vezes são pequenas apostas que sabemos que funcionam. Há sempre um momento de stress durante 5-10 minutos, a pensar se estamos na direção certa. E quando finalmente nos reencontramos, que é o que acontece na maior parte das vezes, alivia. Orientamo-nos com referências: relevos, uma crista, ao longo de um rio, um tipo de vegetação. É principalmente pelo relevo, pelas cristas e pelas ravinas que nos orientamos. E depois, no caso da Barkley, quando encontramos o livro, aí é garantido: estamos no percurso certo.

De onde veio a ideia destes livros (nota do editor: os corredores têm de trazer páginas dos livros para provar o percurso)?

No início, não havia livros na Barkley. O Laz’ dizia, no fundo: “façam o percurso e voltem”. Mas não tinha forma nenhuma de verificar quem fazia mesmo o percurso certo. Foi um corredor, Ed Furtow, que teve a ideia de colocar livros e arrancar páginas… O Lazarus gostou.

Voltemos a esta edição de 2026. Houve uma verdadeira “french connection” antes e durante a prova...

Por iniciativa minha, passámos mesmo a semana inteira juntos, nós os cinco franceses. Já nos tínhamos organizado antes com o Guillaume (Calmettes) e o Ronan (Pierre), e depois o Sébastien Raichon juntou-se quando o convidámos. O Mathieu (Blanchard), que conhecíamos menos, completou a equipa. Foi a primeira vez dele na prova. Fui eu que propus a ideia de passarmos a primeira semana toda juntos, entre franceses, e foi mesmo muito fixe. Não nos relacionámos como concorrentes, mas como amigos, como muitas vezes acontece na Barkley. Mais uma vez, não é uma corrida contra os outros, é uma corrida contra a corrida, todos juntos. Correu super bem entre nós. Durante a prova também, andámos um bom bocado todos juntos. Depois, o efeito da corrida faz com que cada um vá mais ou menos longe. Mas isso, sinceramente, pouco importa. Não há nenhum peso na consciência por ir menos longe do que outro. Criámos uma bela comunidade lá. E isso foi muito bonito… Uma grande memória!

Disse coisas bem fortes no fim desta edição de 2026… Já acabou mesmo com esta prova?

(Sorriso) Não, não acho que esteja fechado… É verdade que reagi a quente. Mas a frio, não acho que esteja fechado. Nunca dizer nunca. Claro que preciso de uma pausa, isso é garantido. Porque, no fundo, embarcar nisto… Para mim, não é o resultado final que me move e me motiva para voltar ou não voltar. É o nível de compromisso. É um projeto que, cada vez, ocupa 2-3 meses do ano, em que temos de treinar como loucos, e depois temos de ir aos Estados Unidos, etc. É uma viagem de pelo menos uns dez dias, que felizmente faço com a minha companheira. É muito exigente, mesmo sendo uma paixão; não me vou queixar, é uma escolha. É uma paixão que ocupa espaço no dia a dia. E como eu, pelo menos do ponto de vista pessoal, não consegui encontrar as chaves para destrancar as gavetas extra de mental de que eu precisava para ir mais longe nesta prova, é porque tenho coisas para viver noutros lados, para procurar, para progredir, para me inspirar noutras pessoas, para tentar encontrar essas chaves noutros projetos.

Não parece saciado, apesar das suas conquistas…

Com a Barkley, apercebo-me de que, ao ter terminado a prova logo no primeiro ano, isso fechou-me bastantes “gavetas” mentais e eu tenho dificuldade em ir tão longe como iria se não a tivesse acabado. E isso é algo que tenho de aceitar. Não é por falta de vontade ou de compromisso, porque eu comprometi-me sempre imenso, mas porque preciso de ganhar distância em relação ao facto de correr este evento, porque é exigente demais. Pede-nos muito, em todos os níveis. Portanto, provavelmente não foi a minha última, espero eu. Mas não já. A vida é longa, espero. Tenho 35 anos. Na corrida, em geral, dá para competir muito tempo. Daqui a 10 anos, terei 45. Se eu tiver vontade de voltar nessa altura, ou mesmo antes, ou depois, não sei. Por isso: nunca dizer nunca. Mas sinto claramente que é o fim de um ciclo. Isso é certo. O ciclo em que vivi esta prova durante quatro anos. E agora vou concentrar-me noutras aventuras para continuar a progredir.

O que é, afinal, dois ou três meses de preparação do Aurélien Sanchez?

É muito volume, muitos fins de semana nos Pirenéus. Só para dar um exemplo: em dois meses, fiz 80 000 metros de desnível, ou seja, 10 000 metros por semana. Portanto, dá trabalho. Também representa muitas sessões de fisioterapia, reforço, etc. Ando à volta de 25 horas de treino por semana. Estou a preparar o Pacific Crest Trail. É a travessia dos Estados Unidos do México ao Canadá, um trilho mítico nos EUA. Vou preparar isso, vai ser num mês e meio, dois meses. Portanto, 4200 km de logística; vou com a minha companheira, Lucille, e o primo dela, Martin. Estou a preparar-me a sério, porque nunca fiz algo tão longo em termos de quilometragem…


EDIT de 25 de julho de 2026

Este artigo foi escrito mesmo antes da partida do Aurélien para a Pacific Crest Trail, um “trilho” com 4240 quilómetros que atravessa os Estados Unidos da fronteira mexicana à fronteira canadiana. O corredor francês voltou a mostrar toda a sua solidez e uma resistência mental fora do comum ao bater o recorde do PCT em 45 dias, 20 horas e 15 minutos, melhorando em 16 horas e 35 minutos o tempo do belga Karel Sabbe, que datava de 2016.