Elhousine Elazzaoui conquista o terceiro título consecutivo na Golden Trail World Series ao vencer a final do Muju Trail
Publicado em seg., 26 de outubro de 2026
O marroquino Elhousine Elazzaoui (NNormal) fez uma prova magistral no Muju Trail, na Coreia do Sul. Ao conquistar a quarta vitória da temporada na Golden Trail World Series (GTWS) 2026, na final, garantiu o terceiro título consecutivo na classificação geral e passou a ser o atleta mais titulado da história do circuito. A romena Madalina Florea (Scott) fez o mesmo no setor feminino e repetiu a dobradinha na geral. A Salomon vence a primeira classificação por equipas da GTWS.
O marroquino Elhousine Elazzaoui (NNormal) assinou uma prestação histórica na final da Golden Trail World Series, disputada no Muju Trail, na Coreia do Sul. Conquistou o terceiro título consecutivo no circuito depois de vencer pela quarta vez esta temporada (já tinha ganho em Zegama-Aizkorri, na Ledro Sky Trentino e na Salomon Pitz Alpine Glacier), num dos percursos mais técnicos e exigentes alguma vez propostos: 28,65 km e 2313 m D+. Com esta nova coroa, passa a ser o atleta mais titulado da história da série e confirma, mais uma vez, a sua afinidade especial com esta competição.
O queniano Patrick Kipngeno (Run2gether On Trail) foi segundo na prova e na classificação geral, e o seu compatriota Timothy Kibett (Salomon) completou o pódio. O dia foi bem mais duro para o queniano Philemon Kiriago (Run2gether On Trail). Líder da geral à partida para a final, não foi além do 11.º lugar, perdeu todas as hipóteses de manter o primeiro posto e recuou para o terceiro lugar da classificação final.
Elazzaoui vira a final ao partir para o ataque
A final masculina arrancou debaixo de chuva. Apesar da dificuldade do percurso, os primeiros quilómetros tinham os troços mais corríveis do dia, com um caminho largo a levar os corredores até ao Seolcheonbong, antes de entrarem nos setores mais técnicos.
Líder da geral, Kiriago tomou a iniciativa nos primeiros metros da subida, mas a fuga a solo durou pouco. Formou-se um pequeno grupo da frente, com os três candidatos ao título. Kipngeno, porém, não parecia à vontade e chegou a parar por instantes, primeiro sinal de que a batalha decisiva não estava a começar como esperava.
À medida que o declive aumentava, o grupo foi-se esticando. O mexicano Brayan Rodríguez e o norte-americano Taylor Stack (Brooks) passaram para a frente, com Kiriago, o espanhol Alain Santamaría (X-Bionic Integrity) e os três representantes da Salomon, o suíço Joey Hadorn e os quenianos Ezekiel Rutto e Samwel Kiprotich, a poucos segundos.
Mas a corrida estava longe de ter dono. No troço que liga o Seolcheonbong ao Hyangjeokbong, a cerca de 1600 m de altitude e no ponto mais alto do percurso, uma nova aceleração fez explodir o grupo. Desta vez, foi Elazzaoui a atacar. Sabendo que só uma vitória lhe permitiria manter as hipóteses de ganhar o terceiro título da geral, o marroquino adotou uma estratégia muito mais agressiva do que o habitual e lançou um ataque decisivo para se isolar na frente.
Quando chegou ao Hyangjeokbong, por volta do quilómetro 6,5, Elazzaoui já tinha cerca de um minuto de avanço sobre um grupo perseguidor formado por Stack, Rodríguez, Kibett, Hadorn, Santamaría e o queniano Michael Selelo Saoli (Run2gether On Trail). Mais atrás, Kiriago e Kipngeno já acumulavam mais de um minuto e meio de atraso. Os problemas de Kipngeno continuavam, enquanto o domínio de Kiriago no primeiro lugar da geral começava a ruir.
Os segmentos cronometrados de bónus, potencialmente decisivos
O percurso oferecia a seguir um terreno ideal para Elazzaoui: uma descida vertiginosa até ao templo de Baengnyeonsa, entre degraus, rochas e folhas encharcadas pela chuva. Enquanto o marroquino parecia deslizar sem esforço por estas passagens técnicas, os rivais lutavam para manter o ritmo numa descida que exigia precisão, confiança e domínio.
Santamaría foi o mais rápido neste segmento cronometrado de descida, 2,5 km a 28%, em 11’54. Elazzaoui foi quinto e somou dois preciosos pontos extra na geral. Um bónus aparentemente modesto, mas potencialmente decisivo numa luta pelo título extremamente equilibrada.
Os segmentos cronometrados tinham contribuído em grande medida para manter a geral em aberto até Muju. Sem os pontos de bónus acumulados ao longo da época nas subidas, descidas e sprints, Elazzaoui teria chegado à final como líder. Mas Kiriago somava 106 pontos extra graças a esses segmentos, contra 58 do marroquino, o que lhe permitia partir para a última prova em vantagem.
No quilómetro 9, o cenário tinha mudado por completo. Kiriago ocupava o décimo lugar, a quatro minutos da frente, e as esperanças de manter a liderança desvaneciam-se. Elazzaoui, por seu lado, continuava a impor um ritmo forte na frente, em busca da vitória de que precisava.
Na segunda subida ao Hyangjeokbong, as posições atrás do líder voltaram a mexer. Elazzaoui mantinha o controlo firme da corrida, com Santamaría e Stack na perseguição. Stack reagiu e recuperou o segundo lugar, enquanto Hadorn se aproximava de Santamaría e entrava na luta pelo pódio. Ao passar o cume, Elazzaoui tinha ampliado a vantagem para mais de cinco minutos sobre os perseguidores mais próximos e para mais de doze sobre Kiriago, já em 15.º.
O segmento de sprint também se disputava neste troço, com 1,1 km e um declive médio de -7,7%. O checo Jan Fiala fez o melhor tempo, 3’08, à frente de Kiriago. Apesar das dificuldades de adaptação ao percurso, o queniano mostrou que ainda tinha boa velocidade. O segundo lugar neste segmento rendeu-lhe mais oito pontos e reduziu ligeiramente o atraso para Elazzaoui na corrida ao título.
A recuperação de Kipngeno não chega…
Depois do sprint, a corrida voltou a acelerar, desta vez na luta pelo pódio. O cansaço já pesava quando Patrick Kipngeno apareceu nas posições da frente. Ao pé da última subida, por volta do quilómetro 21, o queniano tinha cerca de dois minutos de atraso para Stack, Santamaría e Hadorn. Dois quilómetros depois, no último cume, já tinha subido ao segundo lugar.
Não foi o único a acelerar no fim. Timothy Kibett também ultrapassou Stack e Santamaría e lançou-se atrás de Hadorn, transformando os últimos quilómetros numa luta feroz pelo pódio. Com uma última descida e menos de cinco quilómetros pela frente, tudo era possível atrás de Elazzaoui, que controlava a corrida desde a primeira subida.
O marroquino nunca fraquejou. Cortou a meta em 2h49’14, numa das melhores atuações da carreira, no momento em que havia mais em jogo. Kipngeno terminou apenas 43 segundos depois, fechando uma recuperação espetacular e uma temporada cada vez mais sólida, com duas vitórias e outro pódio na última trilogia asiática. Kibett completou o pódio, a cerca de um minuto e meio do vencedor.
Na classificação geral da temporada, Elazzaoui subiu do terceiro para o primeiro lugar e ganhou com 1130 pontos, apenas dois a mais do que Kipngeno (1128), que ficou em segundo. Para Kiriago, a final trouxe uma reviravolta cruel: líder antes da prova, acaba em terceiro na geral, com 1075 pontos.
Hoje dei tudo. Sabia que estava a arriscar, mas disse para comigo: “Se acontecer alguma coisa, paciência.” Escrevi até “Ser ou não ser” nas mãos para me lembrar de que hoje era tudo ou nada. Ganhar três títulos na Golden Trail World Series é um recorde. Para mim, é mesmo histórico. Estou tão feliz que mal encontro palavras.
O marroquino já olha para o futuro. Admite orientar-se para distâncias mais longas, mas não exclui voltar para engordar ainda mais o palmarés: «Quero voltar para o ano, porque será o 10.º aniversário da Golden Trail World Series e isso vai ser muito importante para mim. Vamos ver se ainda terei condições para lutar por outro grande resultado»
Top 5 masculino da etapa final
1) Elhousine Elazzaoui (Marrocos): 2h49’14
2) Patrick Kipngeno (Quénia): 2h49’58
3) Timothy Kibett (Quénia): 2h50’48
4) Joey Hadorn (Suíça): 2h52’22
5) Alain Santamaría (Espanha): 2h54’00
Top 10 da classificação geral 2026
1) Elhousine Elazzaoui (Marrocos): 1130 pontos
2) Patrick Kipngeno (Quénia): 1128
3) Philemon Kiriago (Quénia): 1075
4) Michael Selelo Saoli (Quénia): 968
5) Timothy Kibett (Quénia): 922
6) Nashon Kiplimo (Quénia): 820
7) Bogdan Damian (Roménia): 812
8) Ezekiel Rutto (Quénia): 770
9) Alain Santamaría (Espanha): 759
10) Joey Hadorn (Suíça): 743
Prova feminina: Andrea Kolbeinsdóttir surpreende e Madalina Florea mantém o título
No setor feminino, o Muju Trail revelou uma nova estrela. A islandesa Andrea Kolbeinsdóttir (Salomon) conquistou a primeira vitória no circuito internacional, na véspera da prova masculina, num percurso tornado ainda mais difícil pela chuva.
Poucos minutos depois, a romena Madalina Florea (Scott) cruzava a meta em segundo lugar, com mais um motivo de alegria: o resultado garantia-lhe a manutenção do título na classificação geral da GTWS.
Kolbeinsdóttir, nasce uma estrela
Os primeiros quilómetros abriram os primeiros intervalos, no único troço do percurso em que as atletas conseguiam encontrar um ritmo regular, num caminho largo e pouco acidentado. Depois, seguiu-se uma subida exigente de seis quilómetros em direção ao Seolcheonbong.
A queniana Caroline Kimutai (Salomon) tomou o comando e abriu vantagem na frente. Madalina Florea seguia-a a 24 segundos à aproximação do setor de transição para o Hyangjeokbong, o ponto mais alto do percurso, a mais de 1600 m de altitude.
Atrás delas, a prova continuava muito aberta, com a romena Madalina Amariei (Kailas Fuga), a queniana Ruth Gitonga (Run2gether On Trail), Andrea Kolbeinsdóttir (Salomon) e a norte-americana Hanna Groeber (Nike ACG), todas a menos de dois minutos da frente.
A corrida virou na primeira descida para o templo de Baengnyeonsa: 2,5 km com 28% de declive médio, com degraus, rochas molhadas e um tapete de folhas mortas a esconder o terreno, o que tornava ainda mais delicada uma descida já de si técnica.
Florea apanhou Kimutai a meio e passou para a frente, enquanto a compatriota Amariei recuperava para menos de um minuto e chegava ao fundo da descida em segundo.
Mas foi Andrea Kolbeinsdóttir quem aproveitou a descida para lançar a ofensiva. A islandesa alcançou Kimutai e tornou-se a principal adversária de Florea na subida seguinte para o Hyangjeokbong. Nos trilhos florestais técnicos e nas rochas irregulares, foi recuperando terreno até ultrapassar a romena perto do cume. As duas iniciaram juntas a segunda descida para o templo.
Atrás das duas líderes, Amariei tomou o terceiro lugar a Kimutai na descida. Esta acabou por cair e foi também ultrapassada pela mexicana Miriam Morales, comprometendo as esperanças de título na geral. A prova de Groeber também acabou: a norte-americana desistiu com problemas musculares, no regresso à competição depois da fratura no pulso sofrida na corrida da Grande Muralha da China.
A islandesa levou o corpo ao limite e caiu na descida, mas ainda assim chegou ao quilómetro 17 com 35 segundos de avanço sobre Florea.
Com as restantes candidatas já a mais de cinco minutos, a vitória ia decidir-se entre as duas. Mas a vantagem de Kolbeinsdóttir evaporou-se depressa e Florea voltou à frente na transição para a última grande subida, rumo ao Chilbong.
Duelo sem tréguas na frente
As duas atletas trocaram então de posição nos primeiros quilómetros desta subida decisiva: 2,2 km com 25,2% de declive médio, com passagens acima dos 40%, degraus enormes e rochas escorregadias que obrigavam por vezes a usar os braços para progredir.
Foi nesta subida que Kolbeinsdóttir lançou o ataque decisivo. A islandesa acabou por largar Florea, que também tinha dificuldade em manter o equilíbrio no terreno escorregadio, e chegou ao cume com quase três minutos de avanço, uma margem confortável para a última descida. O melhor tempo do segmento de subida pertenceu, no entanto, à suíça Theres Leboeuf (Compressport / Lowa), que o completou em pouco mais de 32 minutos.
Em vez de se limitar a gerir a vantagem, Kolbeinsdóttir continuou a abrir intervalo na última descida e cortou a meta com quase seis minutos de avanço sobre Florea. A islandesa ganhou a primeira prova na Golden Trail World Series em 3h19’56.
Atrás dela, Florea, radiante, passou a meta e festejou o resultado a rebolar nas poças de água. O segundo lugar valia-lhe uma recompensa ainda maior: o segundo título consecutivo na classificação geral da Golden Trail World Series.
A luta pelo último lugar do pódio foi bem mais renhida. Morales e Amariei chegaram quase juntas à última rampa que atravessa a estância de esqui, mas a mexicana segurou o terceiro lugar por apenas 24 segundos.
Da Austrália à Coreia do Sul, o caminho vencedor de Kolbeinsdóttir
O caminho de Andrea Kolbeinsdóttir até à vitória na Coreia do Sul tinha começado vários meses antes, a milhares de quilómetros dali, na Austrália.
«Foi bastante curioso. Estava em Melbourne e o meu treinador disse-me que podia participar nos Golden Trail National Championships (GTNC) e que tinha hipóteses de ganhar. Ganhei a prova e consegui um Golden Ticket para vir aqui, à Coreia do Sul», explicou.
Os Golden Tickets dão acesso direto à final da GTWS. O sistema serve para identificar os melhores talentos nacionais e as promessas do trail, dando-lhes a oportunidade de se medirem com a elite internacional.
Depois de garantir o bilhete para Muju, Kolbeinsdóttir já tinha mostrado o seu potencial na Ledro Sky Trentino, em Itália. Foi quinta, provando que podia competir com as melhores atletas do mundo, e mostrou ainda as suas qualidades em terreno técnico ao fazer o melhor tempo no segmento de descida.
Tenho de admitir que esta manhã disse para comigo: “Eu consigo ganhar.” Estava muito positiva e acreditava mesmo em mim. É um percurso que me assenta muito bem. Sinto-me à vontade em terreno técnico. Talvez dedique o próximo ano à Golden Trail World Series.
Florea fecha uma temporada quase perfeita com o segundo título na GTWS
No fim de uma temporada marcada por uma regularidade notável, Madalina Florea foi coroada campeã da Golden Trail World Series pela segunda vez. A romena fez uma campanha de 2026 quase perfeita, com vitórias no Québec Mega Trail, na Salomon Pitz Alpine Glacier Trail e em Sierre-Zinal. Nas duas únicas provas que não ganhou, a Ledro Sky Trentino e a final do Muju Trail, ficou em segundo.
A romena conclui a época com 1164 pontos, à frente de Caroline Kimutai, segunda com 1016, e de Ruth Gitonga, terceira com 982.
É a corrida mais difícil que alguma vez fiz. Já nem sentia o corpo.
Top 5 feminino da etapa final
1) Andrea Kolbeinsdóttir (Islândia): 3h19’56
2) Madalina Florea (Roménia): 3h25’46
3) Miriam Morales (México): 3h29’12
4) Madalina Amariei (Roménia): 3h29’35
5) Barbora Bukovjan (República Checa): 3h29’54
Top 10 da classificação geral final
1) Madalina Florea (Roménia): 1164 pontos
2) Caroline Kimutai (Quénia): 1016
3) Ruth Gitonga (Quénia): 982
4) Barbora Bukovjan (República Checa): 974
5) Marie Nivet (França): 892
6) Silvia Schwaiger (Eslováquia): 765
7) Theres Leboeuf (Suíça): 764
8) Estel Roig Fortin (Espanha): 737
9) Renée Cradinaals (Países Baixos): 730
10) Hanna Groeber (EUA): 718
Na primeira edição da classificação por equipas, a Salomon termina a temporada no topo, depois de uma regularidade notável ao longo do ano, e ganhou também a classificação coletiva em Muju. O terceiro lugar de Timothy Kibett e o quarto de Joey Hadorn no setor masculino, somados à vitória de Andrea Kolbeinsdóttir e ao quinto lugar de Barbora Bukovjan no feminino, permitiram à equipa fechar a época da melhor maneira.
Encerrada a temporada de 2026, os olhares viram-se já para 2027, cujo calendário será divulgado em breve.